A maioria das histórias de quartistas nasce dos encontros entre os organizadores, criadores e cavaleiros, que participam de eventos, que ocorrem em todo Brasil. Entre um intervalo e outro de uma prova, ou antes dos leilões, sempre alguém conta uma história, uma aventura. Às vezes, exagerada. Mas todas elas verdadeiras ou quase. Esse espaço é dedicado a elas.
Um Chuchu muito louco
Se chamarmos o cavalo pelo nome, ele atende, como um cachorrinho? Existiu um que, quando ouvia seu nome no microfone, ficava louco. Ele chegava ao evento manso, parecia que queria dormir. O dono colocava-o no cercado. Lá, ele ficava com suas orelhas murchas. Quando se aproximava a hora de o locutor chamá-lo para a apresentação, dois peões ficavam por perto para segurá-lo e o cavaleiro subia na cerca.
Assim que escutava voz do locutor, na prova de Três Tambores, dizendo: "Prepara Chuchu..." Ele endoidava, empinava, dava coices, virava um demônio. Tinham de segurá-lo próximo à cerca onde já estava o cavaleiro, que pulava sobre ele. A porteira era aberta rapidamente e ele entrava na pista feito um raio. Quem viu suas apresentações, garante que ganhava muitas provas, um foguete, esse tal de Chuchu. Contam ainda que mudaram seu nome e nunca mais endoidou numa prova. Mas se o chamassem de Chuchu...
Antes do sonho, o castigo
Corria o de 1980, o Kenny Knowton, Elói Medeiros e o Adriano Caranha, três dos nossos cowboys brasileiros foram ao rancho do Buster Welch, precisamente na Swift King Ranch, no Texas (EUA), onde o lendário treinador estava trabalhando. No primeiro dia que chegaram para treinamento de Apartação, encostaram perto da pista duas carretas, cada uma com dois mil fardos de alfafa.
O velho Buster apontou com o dedo para eles. E o Kenny pensou:
- Acho que agora nós vamos apartar...
Aí, o Elói falou para o Kenny, dando risada:
- Nós vamos é ali naquela carreta... Descarregar todos os fenos.
Como Elói estava acostumado com serviço pesado, não estranhou.
Então, já descarregando os fenos, Elói voltou a dizer ao Kenny, dando risada:
- Como está aí o cutting? Como está o boi? O cavalo está voltando certinho?
O Kenny, num português ainda enrolado, disse:
- Elói, você é muito tirador de sarro. Você tem de parar com isso, viu...
Eles tinham de descarregar os dois mil fardos de alfafa, antes de realizar o grande sonho de apartar com o legendário cowboy. À tarde, as mãos dos valorosos cowboys brasileiros estavam em carne viva. Mas valeu a pena, pois depois conseguiram conhecer alguns segredos da arte, com Busch Welch, considerado, o “Pai da Apartação”.
Cavalo Adão
Quando um falso treinador não dá conta de arrumar um cavalo, vem com várias desculpas. Um desses personagens, depois de longo tempo tentando aprontar o animal para alguma modalidade, não conseguiu. Mas, para não ser desmoralizado perante seus companheiros, veio com essa. “Esse animal não tem costela, por isso não serve prá nada”, desculpou-se, tentando se livrar da responsabilidade. Algum tempo depois, um verdadeiro profissional "ajeitou" o bicho. Ficou um creme, na mão..... A partir daí, muito satisfeito, pensou num nome que ficasse na história e concluiu:
- Daqui prá frente, vou chamá-lo de Adão...... Aquele que não tinha costela...
O falso cowboy
A idolatria que muitos brasileiros têm pelos “gringos”, acreditando que eles entendem a alma dos cavalos e os amam acima de todas as coisas, muitas vezes é pura ilusão. Na década de 90, o mercado estava em baixa. Boas matrizes, prenhas e com potro ao pé, eram vendidas, não somente no Leilão Oficial da ABQM, como em várias praças, por R$ 60, em 12 parcelas. Mas nem por isso, os verdadeiros cowboys, mandavam seus cavalos para o “gancho”, pois acima de todas as coisas, esses grandiosos animais contribuíram para a história na raça. Contudo, era a época de liquidação de um dos maiores e lendários criatórios de Quarto de Milha no Brasil. Lá, havia um administrador norte-americano, que mandava nos destinos de todos os cavalos. Seu bigode era maior do que sua bondade. Certo dia, bebeu umas e outras, brigou com a mulher. Pegou um revólver e foi em direção ao pasto. Sem dó, disparou em direção de um garanhão. Uma lenda na reprodução no Brasil, na linhagem de Trabalho. Ele estava velho, não produzia mais. Só dava despesa. A lenda foi “desaparecida” e depois de alguns anos, o falso cowboy voltou a sua terra natal (antes de ocorrer a fantástica recuperação da raça) e tudo ficou por isso mesmo... Deveriam desenterrar os ossos desse reprodutor e fazer uma estátua em sua homenagem. E o falso cowboy? Bem que merecia ser enforcado no melhor estilo do Velho Oeste.
Porta-chapéu ou casa de cobra?
Não conheço nenhum objeto para chamar mais a atenção do que um porta-chapéu. Ao abri-lo, seu fecho já faz aquele barulho seco...Creeek. Quem nunca o viu, fica imaginando mil coisas. O que poderia estar dentro daquela caixa? Deve passar muitas fantasias pela cabeça do curioso. Pois bem. Corria o ano de 1990, e os nossos valorosos juízes estavam voltando dos Estados Unidos, onde haviam feito um curso de reciclagem naquele País das maravilhas countries. Todos compraram um porta-chapéu (claro, sem o chapéu dentro, pois não tinha sobrado dinheiro para tanto). Ao desembarcarem no aeroporto do Galeão (RJ), enquanto esperavam as malas, colocaram todos os porta-chapéus no chão. Não deu outra. Começou a juntar um monte de curiosos, para saber o que havia dentro daquelas caixas. Um juiz, muito do malandro, disse que eram cobras. Umas pequenas e mansas. Outras grandes e bravas. Enquanto juntava gente. Um deles ia lá e creeek...Abria somente uma fresta e dizia para quem queria ouvir: "Essa é pequena e mansa". Outro juiz repetia o gesto, falando: "Essa aqui já é grande e brava". Quando já havia se formado um monte de curiosos, um deles pediu para abrir uma das caixas. O juiz-vaqueiro Nilson Ricartes, mato-grossense dos cinco costados, foi em direção de sua caixa de chapéu e, abriu-a....Creekk. Em seguida, soltou um grito indígena e bradou novamente: "Vai escapaaaaar". Foi "nego" correndo pra tudo quanto é lado, pensando que era a tal cobra. Nem esperaram para ver se era da mansa e pequena ou da brava e grande...
Regis e a Carpa Carolina
Regis Frati, titular do Rancho Tropeiro, além dos cavalos, tem um xodó especial pela carpa Carolina, que fica alojada nas águas do lago de seu rancho. Quem vai pescar lá, toma um cuidado danado para não fisgá-la. Mas ela gosta de uma minhoca como ninguém e sempre acaba no anzol, para desespero dos pescadores. O primeiro a pegá-la foi o tratador Bal. Não deu outra, lá de cima do morro escutou: “Solta essa porra cara!!!!"
Tuiúiú, o enxugador de pista
Quando se encerram as provas do Potro do Futuro da ABQM do dia 11 de dezembro de 2008, o pessoal da organização foi saborear uma pizza lá mesmo no Recinto Mello Moraes, em Bauru (SP). A conversa entre eles, girava sobre a possibilidade de desistência dos profissionais da Apartação em participar do Potro do Futuro, alegando falta de condições da pista. Aí, o juiz José Ricardo Neder, o conhecido Tuiúiú, veio com essa história. “Organizamos uma prova de Rédeas este ano em Jacareí. Choveu e a pista encharcou. Não deu outra. Retiramos as esponjas de um sofá velho, pegamos um tambor e fomos enxugá-la. Torcíamos a esponja e água era despejada no tambor. Assim fomos secando a pista.” Aí doeu demais. O sarro em cima do Tuiúiú desabou geral. Mas ele garante a veracidade dos fatos, inclusive que a prova foi realizada...
Cavalo doidão
O que acontece, quando um cavalo é medicado irregularmente? Pode dar uma bruta confusão. Certa vez, numa prova na cidade de Maringá (PR), teve um que ficou doidão. Com vários coices, derrubou a baia pré-fabricada, onde estava alojado. Escapou em disparada pelo parque de exposições. Mandou outro coice numa caminhonete, cortando a lataria do veículo. Seguiu em frente e enfiou a cabeça num desses postes que seguram lona do circo de leilão e caiu desacordado. Recuperado, depois de dois meses, morreu de cólicas.
Grito de índio salva brasileiros em Miami
Em 1990, a diretoria da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM) enviou um grupo de juízes ao Campeonato Mundial de Jovens, nos Estados Unidos, para uma reciclagem. Como ninguém é ferro, mas brasileiro, esse grupo resolveu “molhar goela”, num bar na periferia de Miami. Entre eles, estava Nilson Ricartes, mato-grossense e conhecedor de alguns idiomas indígenas. Enquanto nosso bravos juízes bebiam e davam muitas risadas, num outro canto, um bando de negros, com cara de marginais, observavam seus passos. Quando os juízes saíram do bar, os marginais os seguiram. Os brasileiros apertaram os passos e eles também. Resolveram então “cortar” uma esquina. Mas deram de frente com os perseguidores. Nilson, então, arriscou e começou a gritar os cantos dos índios que só ele conhecia. Vendo aquela gritaria toda e aquela linguagem estranha, os marginais se assustaram, deram meia volta e... Saíram correndo...
O canto da bicharada e o hóspede furioso
Funcionários, juízes e grande número de competidores estavam hospedados num hotel, em Bauru (SP), durante o Campeonato Nacional da ABQM. Todos acordavam muito cedo. E as muitas brincadeiras nos quartos eram ensurdecedoras, pela manhã. Um imitava cachorro, outro cavalo, galo, porco, uma verdadeira fazenda. Todos tinham de acordar na marra, para mais um dia de competições. Então, um hóspede, nervoso (deveria ser um vendedor, preocupado com sua calça de tergal) começou a gritar, de seu quarto: "Porra... faz uma semana que eu não consigo dormir nesse hotel... caral...! Fez-se um silêncio profundo... Alguns segundos depois, não deu outra, o Eugênio (Scatena) abriu a janela do apartamento no hotel e mandou essa: "Tá brabão...Tá...?" Nos quartos, onde os profissionais da ABQM já estavam acordados, explodiram as risadas.
Um homem chamado cavalo
Década de 80. Rua Bento Frias, nas proximidades do Jockey Club de São Paulo. Uma figura folclórica sempre aparecia nos bares das redondezas. Era o Homem Cavalo. Nos sapatos, usava ferraduras. Nos fundilhos da calça, costurou um rabo postiço. Um manta cobria seus ombros. Às vezes, até relinchava, para o delírio dos cavalariços. E foi um deles que, certo dia, perguntou:
- Se você é mesmo um cavalo, por que não vai puxar uma carroça?
De bate-pronto, o Homem Cavalo respondeu:
- Eu sou cavalo, não um burro!
Cavalo não é para cantar
Um tradicional criador sempre realizava leilões durante o Congresso Brasileiro da Raça Quarto de Milha, em Presidente Prudente (SP).
Em um deles, o comprador gostou de um cavalo e arrematou-o.
Embarcou o animal feliz da vida. Chegando em seu haras, examinando-o melhor, descobriu que o cavalo só tinha a metade da língua. Indignado, telefonou para o vendedor:
- Você me vendeu um cavalo sem língua.....
Sem titubear, o vendedor saiu-se com essa:
- Você comprou um cavalo para andar, ou para cantar?